‘Se eu fosse igual ao Silvio, ele não precisaria de mim’
Novo contratado do SBT, o ex-apresentador de ‘O Aprendiz’ (Record) fala da nova casa, do seu futuro como publicitário e da carreira de ‘cantor palestrante’
Roberto Justus vira a tela do computador e exibe com orgulho sua participação no DVD de Agnaldo Rayol. “Quem vai falar mal assistindo a essa apresentação?”, fala, enquanto se senta na poltrona de sua sala na agência Young & Rubicam. A semana do empresário, apresentador e cantor palestrante foi das mais atribuladas. Justus fechou um contrato de quatro anos com Silvio Santos. Por enquanto, sabe que vai apresentar um game show – e só. Na manhã de sexta-feira, horário no qual a entrevista com o JT estava marcada, Silvio o chamou para assistir a uma gravação sua no SBT. A entrevista foi adiada e só ocorreu na tarde daquele mesmo dia.
Essa reunião pela manhã com o Silvio Santos definiu o seu programa no SBT?
Temos reuniões a todo momento. Hoje, fui convidado a assistir a uma gravação do Silvio e não podia recusar. Já definimos o dia da semana e o horário do meu game show, mas a concorrência não pode saber ainda. Meu programa terá uma hora e meia. Não vai ser tudo do jeito que eu gostaria porque não teremos tempo para fazer com a minha cara. Sabe, nós somos muito diferentes, mas acho que podemos nos complementar muito bem.
Como assim?
O mestre Silvio Santos fala muito bem com esse público do SBT. A ideia é que eu faça um pouco do que fiz na Record, trazer também o público A e B. Se eu fosse igual ao Silvio, ele não precisaria de mim. Meu show vai ter uma cara um pouco diferente da dos programas populares do SBT.
Não vai ser um choque?
Não. Para mim, não existe público do SBT, existe um público brasileiro. Sei falar com as classes C e D também. Quando apresentei o quiz show, dentro do Aprendiz (Record), mostrei o meu lado animador de auditório. Sei ser brincalhão. O Silvio me disse que eu tenho um perfil raro para ele, do apresentador que também é empresário. E o Silvio nunca teve um apresentador com esta visão de negócio do lado dele. Dá um casamento interessante. Posso levar essa visão de mercado de comunicação, de publicidade.
Mas como você vai reagir se ele começar a mudar seu programa de horário, como costuma fazer com outros da emissora?
Eu falei especificamente sobre esse assunto com ele. Disse que ele tem essa imagem de ser um pouco instável com relação a suas decisões. E com todo o respeito, eu não gosto de me sentir instável. Ele me perguntou se eu confiava na palavra dele e eu disse que 100%, se não nem teria ido para lá. Silvio me pediu para colocar os meus termos em um papel e pediu para eu assinar. Caso ele queira mudar, nós dois teremos de decidir em conjunto. Ele me deu esse conforto.
Você vai ter um poder que não tinha na Record?
Tenho uma sociedade com o Silvio Santos com relação a todos os programas que vou desenvolver no SBT. Todo o lucro ou prejuízo será dividido meio a meio. Eu não tinha essa condição na Record e achava justo que fosse desse jeito. Tenho muito mais ligação com o Silvio do que com a chefia da Record. Quero ser um grande apresentador e contribuir com a audiência do canal.
Esse foi um dos motivos de você ter saído da Record, não ter esse poder de decidir as suas atrações?
O Aprendiz foi trazido pela Record e eles tiveram uma ótima sacada de me colocar no projeto. Mas, a partir daí, o programa virou a minha cara. Criei provas, mexi na dinâmica do show, coloquei meu filho para editar, era quase o meu programa. Talvez o erro deles tenha sido o de não fazer um contrato maior com um apresentador que estava dando resultados. Mas não fiz leilão. A Record tinha a prioridade de renovar meu contrato e optou por não fazer.
A Daniela Beirute (filha de Silvio Santos) também foi uma motivação para a sua ida ao SBT?
Ela é uma graça de pessoa, nos damos muito bem. Eu gosto de ver essa nova geração. Sabe, se eu fosse pensar em longevidade na carreira e soubesse que o Silvio estaria à frente do canal sozinho nos próximos anos, não teria assinado com o SBT. Ele provavelmente vai querer se aposentar, fazer outras coisas, ir se afastando da emissora. Eu combino com essa história de nova geração, tenho uma visão agressiva. O Silvio está sendo muito inteligente de colocar essas novas pessoas.
O projeto ‘Aprendiz’ ficou com a Record. Você pretende fazer algo parecido no SBT?
Tenho a minha equipe de criação trabalhando o dia todo em busca de novos programas. Mas sabe, vou te falar algo que não contei a ninguém. O que acontecerá comigo é muito ingrato. O que eu vou fazer para substituir o Aprendiz não é um programa nos moldes do Aprendiz. Quero fazer alguma coisa parecida no futuro. O problema é que as pessoas já vão comparar esse meu game show com o Aprendiz, e não é a hora.
Quando vai ser a hora?
No ano que vem. Eu tenho de fazer dois, três programas diferentes neste primeiro ano. Mas como vou explicar para o público que o que vai para o ar provavelmente em agosto não é o Aprendiz?
Você será uma espécie de consultor do Silvio Santos?
Isso não existe, ninguém impõe nada ao Silvio. O que ele vai fazer na emissora dele é problema dele. Mas hoje ele ouve mais as pessoas. Eu o vi chamar a direção inteira do SBT para saber o que fazer com o domingo sem o Gugu.
E essa história de você comprar o SBT futuramente?
E eu lá tenho dinheiro para comprar o SBT? Não tem o menor cabimento. Foi o Silvio quem me convidou, não fui eu que me ofereci para ir até lá. Ele comprou o passe do Roberto Justus. O SBT não está à venda. É claro que, se um dia ele quiser fazer negócio, vou pensar no caso.
Mas é um sonho seu ser dono de emissora de televisão?
Enquanto eu for publicitário, não posso pensar nisso. Mostrei com o tempo que ser apresentador nunca influenciou nos meus negócios, mas ser dono de emissora é diferente. Eu gosto de televisão, acho instigante mexer com toda essa mudança de perfil de público. Mas, hoje, ser um ótimo apresentador é a minha meta.
Você vai ter uma filha, estrear um programa provavelmente em agosto e ainda pretende dar continuidade à sua carreira musical. Como vai conciliar todas essas atividades?
Minha vida é atrapalhada. Tive de fazer uma reunião com o Silvio Santos hoje que não estava prevista e isso fez meu dia ficar todo complicado. Mas estou planejando sair mais do dia a dia da minha empresa em 2010. Vou ficar como presidente, não vou ter de vir aqui todos os dias. Quero poder me dedicar mais à minha carreira artística. Depois de 30 anos de publicidade, acho que posso fazer isso. Sou jovem o suficiente para dar conta de outras coisas. Entre elas, a carreira musical, que me dá muito prazer. Antes, quero construir uma reputação na televisão.
Falando da sua carreira musical, você agora tem uma espécie de show palestra. Poderia explicar como funciona?
Foi uma conclusão sábia a qual a gente chegou. Eu sei que as pessoas não estão preparadas para pagar um ingresso para me ver cantar, mas para me ver falar elas pagam. Pensei: “Ok, vocês vão me ouvir falar, mas também vão me ouvir cantar.” Eu deixo uma mensagem motivacional e sempre canto uma música para complementar. Existem grandes palestrantes e existem grandes cantores. Mas grandes palestrantes cantores eu não conheço. É um produto diferenciado.
E o Michael Jackson?
É uma perda lamentável, gostava muito dele. Mas era uma pessoa totalmente desequilibrada. Clareou a pele, quis ficar parecido com a Diana Ross. Eu estava planejando ir para Londres e tentar comprar um ingresso para os seus shows a todo custo. Infelizmente, ele não conseguiu suportar o sucesso todo.
Você tem medo de mudar com o sucesso?
Desde que eu virei pessoa pública, nunca mudei uma palha no meu comportamento, trato todo mundo igual. Cheguei a um show no Balneário Camburi e fui recebido por 14 seguranças. Mandei tirar todos. Queriam me colocar numa suíte para comer e fui comer com minha banda no (restaurante por) quilo. Eles nunca tinham conhecido um artista assim. Tem artista amigo meu que nem telefone atende. Eu atendo o meu.
E quem são os artistas que atendem telefone?
A Hebe Camargo é uma mulher fantástica. Ela tem tudo e continua sendo uma mulher simples, alegre, é um exemplo. Fausto Silva é outro.
E a Eliana, como vai ser seu convívio com ela no SBT?
A Eliana é uma excelente profissional. Não tenho relação com ela no dia a dia, pois fazemos programas em horários diferentes. Torço muito para que ela, com o seu talento, ajude a emissora a crescer. Penso sempre no todo.
Como se vê daqui a 10 anos?
Não penso assim. Se você falasse para mim há seis dias que eu seria apresentador do SBT, não acreditaria. Quem sabe daqui a um mês eu não esteja infeliz? O único compromisso que eu tenho é com a felicidade. Acho que posso ser muito útil para essa emissora. Fico feliz que o SBT consiga proporcionar esse meu sonho.
Fonte: Jornal da Tarde / Agência Estado



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